BÊ-A-BÁ SCHWARTZ

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Foto: Patrícia Almeida

Sobre “La Bête (O Bicho)”, de Wagner Schwartz, apresentado durante o IC 11 – Encontro de Artes
Por Daniel Guerra

Um bichinho

Antes de me bater com uma dessas esculturas de Lygia Clark num museu, eu não sabia que os Bichos eram tão pequenos. O Bicho que Wagner dispõe junto a si é rosa-choque e feito de plástico. Essas esculturas foram criadas para serem tocadas e modificadas. São feitas apenas de placas geométricas e dobradiças, como se todo seu corpo fosse só articulação, mudança e jogo. Isso deixa pouco espaço pra gente se perguntar sobre o que é substância, o que é imagem, o que é representação, “o que é isso”. A substância, o que a coisa é, no Bicho, é uma das coisas que ele pode ser. “Se vire”, “me vire”, é o que o Bicho fala quando a gente tenta entendê-lo.

“A” de animal

Os bichos são seres vivos que se opõem aos humanos por serem muito parecidos e muito diferentes ao mesmo tempo. Isso provoca um abismo. Por isso eles são nossa alteridade mais imediata. As plantas se oferecem muito mais à escravidão utilitária. Um animal não. Ele força o humano a envolver toda a sua vida se quiser se aproximar. Daí temos os cachorros de apartamento, os cavalos treinados, os elefantes de circo. Mas também tem os animais que se revoltam de repente, matam um humano e ninguém sabe porque. Isso assusta a nossa consciência. Isso nos mete medo. Quando alguém está nervoso e faz alguma coisa sem pensar, dizem que “agiu como um animal”. Quando alguém faz alguma coisa de forma extraordinária, exclamam: “é um animal”. Os xamãs viajam na pele dos animais. Os índios tem uma relação íntima e perigosa com fantasmas e animais.

O corpo sem homem

O que é um corpo sem um homem dentro? Quando Wagner fica ali no meio do tapete de papelão ao lado do Bicho, pelado na luz fria e suave da galeria, quer se colocar como se coloca o Bicho: à nossa disposição. Pra ficar à nossa disposição, tem que se apagar dele mesmo, ficar de fora, só olhando, com outro olho, pra ele mesmo e pros outros. Ele vira o Bicho que olha de dentro, pro humano que ele é por fora, mas o faz de um fora que é nosso dentro também. No Bicho de Lygia também é assim, não se sabe ao certo o que é frente e o que é costas. Parece complicado, mas se paramos pra pensar, também não sabemos o que é verso e reverso na gente. Ficar à disposição como um Bicho é ter tido vontade de pensar como um Bicho e fazer pensar como um Bicho. Essa foi a intenção de Wagner, e essa intenção está na obra, e é por isso podemos falar dela como se tivesse sido uma intenção. Ele fica ali pelado e pergunta, depois de alguns minutos brincando com o Bicho dele: “alguém quer tentar?”, olhando pra gente com cara de criança.

A decisão mais difícil

Tomar uma decisão é uma das coisas mais difíceis, ainda mais quando a gente mora nessa época em que não se sabe muito bem o que é e o que não é uma verdade. E a decisão mais difícil é começar, porque começar é fundar alguma coisa, e a fundação nunca tem um parâmetro muito certo. Então tudo fica um tempo ressoando entre aquela pergunta e a possibilidade de alguém querer brincar com seu corpo. Então alguém vai. Esse tempo é um tempo preenchido porque é o tempo em que milhares de portas se abrem e a gente não sabe o que vai acontecer. Esse tempo de abertura para o que pode vir é a beleza já emancipada dos padrões clássicos. Ela acontece ao mesmo tempo que sua duração, e é um tempo tanto pesado quanto leve. Isso é um acontecimento, que é uma coisa muito simples e uma coisa muito complexa. É que nem explicar o que a gente é: podemos falar “eu sou e pronto”, ou desdobrar ao infinito essa questão, pensando em várias formas de ser só porque perguntamos com mais afinco. Mas dizem que isso não é muito prático. E não é mesmo. Se um trabalhador começa a pensar essas coisas ele para de trabalhar, ou erra. Pra isso é que serve um artista e é pra isso que serve um Bicho, pra ser inútil e demonstrar isso com força.

Tempos e modos

É óbvio que depois que vai um, todos vão, porque o humano é assim mesmo, essa característica ele herdou dos seus parentes animais. O que um faz o outro quer fazer, porque assim se cria um código comum, e tudo que é comum ajuda o animal a sobreviver e entender as coisas ao redor. Isso os humanos chamam de tradição e comportamento, mas também de jogo, quando a coisa é mais divertida. E nele acrescentam algumas variações, como por exemplo o azar ou o acaso. Tem gente que chama destino também. De toda forma, eles botam umas regras e depois as obedecem pra ver no que é que dá. Aqui as regras não produzem nada, elas servem só pra fazer as pessoas se divertirem ao redor do corpo de Wagner. Ele deixa porque ele agora é o Bicho e não um humano. A parte humano é a parte corpo, que é deixada ali. Mas quando Wagner se bota na jogada também coloca em xeque quem mexe com o corpo dele. Quem revela seu corpo é revelado também. Dá pra ver quem é dançarino quando o dançarino vai mexer com o corpo de Wagner. Quem é velho e quem é jovem, todo mundo fica revelado quando entra naquela zona de jogo pra mover o outro corpo. É um esconde-esconde maluco onde todo mundo já começa encontrado.

Limites materiais da obra

Quando alguém se relaciona com alguém essa pessoa vai ter que aprender até onde pode ir e até onde não pode ir. Isso tem a ver com os limites da casa onde se mora, com os limites das palavras, com os limites do toque, com os limites psicológicos e outros tantos. As pessoas tem traumas, porque as pessoas são humanas. Os animais também tem traumas, mas parece que eles não ficam pensando muito nisso, senão haveria bichos suicidas. Trauma pode ser uma coisa psicológica, tipo uma memória, ou uma coisa física, tipo um hematoma. Pra brincar com o corpo humano de Wagner você tem que entender os limites desse corpo humano de Wagner, com sua idade e sua flexibilidade relativa, e suas dores e traumas e suas microscópicas vontades, assim como pra brincar com os Bichos de Lygia você não pode apenas dobrá-los ao léu. Você vai dobrar os Bichos de Lygia com alguma dificuldade, e é por isso que ele diz pra você “se vire”, e não só “me vire”. Exige respeito. Quem oferece o corpo pros outros virarem assim ao léu são chamados explorados, porque chega um outro humano e o explora fazendo com que ele se dobre para onde aquele quer que este se dobre. Mas Wagner não é, assim como o Bicho de Lygia, um corpo que você possa dobrar assim ao léu. Você tem que ter respeito. Você tem que se entender como corpo pra entender o corpo dele. Mas você não pode fazer isso antes ou depois, você tem que entender ali junto com ele, senão ele cai feito um boneco, ou faz uma coisa que você não queria que ele fizesse, ou simplesmente não faz. Aqui se tece uma relação muito fina e bela, e a beleza de hoje só pode ser uma coisa muito transitória mesmo, e aí está a beleza do belo hoje em dia, que fica pairando como roleta russa entre a cabeça de todos os participantes. O que é um ser humano e o que eu quero que seja e o que eu quero que não seja, essa é a pergunta do jogo encontra-encontra proposto por Wagner. Acaba e todo mundo bate palmas pra todo mundo.

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